Escola de Capoeira Angola Cortiço do Abelha
Escola de Capoeira Angola Cortiço do Abelha
Nasci do casal José Miguel Serra e Maria Pureza Coêlho Serra, na pia batismal, recebi o nome de Julio Sêrvio Coêlho Serra, tenho 11 irmãos, 9 homens e 2 mulheres, entre os meus irmãos eu fui o único que se dedicou de corpo e alma para a capoeira. Nasci na cidade de Viana-Maranhão em 23-09-1967.
Em Viana morei até os 10 anos de idade, quando me mudei para São Luis, capital do Maranhão. Com os meus 12 anos foi a primeira vez na minha vida que vi capoeira, fiquei admirado, impressionado com a agilidade e equilíbrio que eles faziam com o corpo, ao mesmo tempo eu sentia medo, coragem e respeito com aquela dança era como se eu estivesse em transe e comecei a gostar daquilo, então fiquei treinando sozinho em casa e procurei fazer amizade com pessoas que jogavam capoeira, assim eu podia aprender mais rápido, era o ano de 1979.
Em 1980, me matriculei em uma das poucas academias de capoeira que tinha em São Luis, não era Regional nem Angola, essa diferença eu não conhecia. O meu professor nessa época se chamava Leles da Madeira, eu morei na sua casa durante 1 ano, ele sempre me falava: "Tem que jogar dentro, embaixo e em cima, cruzando o movimento assim o seu adversário não te pega, o capoeirista tem que ser rápido e nunca confiar no adversário". Foi nessa época que o meu professor me deu o apelido de Abelha, porque eu era muito rápido quando eu jogava, eu sempre estava perto do meu adversário.
Alguns anos depois, participando de eventos de capoeira em São Luis e tendo contato com outros Mestres de diferentes cidades do Brasil como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. eu comecei a notar que tinha algo que não gostava na minha capoeira, eu não tinha mandinga como eles tinham, eu ficava admirado como era possível jogar capoeira com uma energia tão forte como aqueles Mestres jogavam.
Em 1990, fui morar no Rio de Janeiro, nesse período conheci muitos Mestres e professores de capoeira, onde escutei historias sobre o Mestre Bimba e o Mestre Pastinha. Foi no Rio de Janeiro, com a convivência no mundo da capoeira, que comecei a compreender o que eu queria finalmente.
No Rio de Janeiro fundei um grupo que se chamava “Grão de Areia”, com crianças e adolescentes da Favela Parada de Lucas. Mas já em 1995, fui obrigado a voltar para São Luis, porque não tinha dinheiro para me manter na cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro, eu ensinava sem cobrar nada porque os meninos não tinham condições de pagar pelo treino e o grupo Grão de Areia terminou por acabar. Em 1995, de volta a São Luis, comecei a dar aulas em academias particulares, associações, clubes, escolas e academias de velhos amigos.
Em 1998, procurei o Mestre João Pereira dos Santos, o Mestre João Pequeno de Pastinha, eu escrevi uma carta explicando toda a minha trajetória na capoeira, estava decidido a largar tudo e ir morar com o Mestre por toda a minha vida, eu estava seguro disso.
No dia 2 de Junho de 1998, às 10:00hs o Mestre me telefona e fala que gostaria de me conhecer, no dia 11 de Junho eu viajo pra Salvador-Bahia diretamente para a casa do Mestre na Fazenda Couto, onde fui recebido pelo Mestre em pessoa, a sua esposa Mãezinha, sua neta Nane e os netos Bujão e Bibinho.
No dia 13 de Junho de 1998, o Mestre me levou para conhecer a sua Academia e me apresentar aos seus alunos no Forte de Santo Antonio dizendo: "Este é o meu aluno de São Luis do Maranhão, o Abelha, ele veio apreender a Capoeira Angola, vou prepará-lo para ser um Professor". O Mestre mandou eu jogar, ficou me observando durante a roda e depois falou comigo em casa: “Só falta vc ter mais calma, o resto vc já sabe, vc tem que se educar com os movimentos, não ser agressivo, não bater no colega, capoeira não é agressão ela não é agressiva, tem que parar o pé antes que você possa bater”. Todos os dias o Mestre falava comigo, porque a capoeira que eu praticava mostrava muita agressividade, não tinha harmonia quando eu jogava, não tinha dialogo de corpo com o meu camarada, e o Mestre sempre falava: "Respeite para ser respeitado".
Morei com o Mestre por um mês marcado por muito treino e longas conversas sobre capoeira, onde ele foi me corrigindo, falando do Mestre Pastinha, da sua vida quando era garoto e eu falando da minha vida também. Durante uma destas conversas o Mestre me perguntou se eu queria que ele desse um nome pro meu grupo em São Luis, e eu falei: “Meu Mestre vai ser uma honra para mim", duas semanas se passaram e no dia 31 de Junho de 1998 as 9:00hs o Mestre me falou: "Abelha já tenho o nome pro seu grupo." Eu perguntei:”Qual é o nome meu Mestre?”, e ele respondeu: “Academia de Capoeira Angola Cortiço do Abelha”. Nesse período a casa do Mestre estava em construção e não tinha um quarto disponível para eu ficar, Mãezinha separou um lugar na sala, um sofá para eu dormir e ao redor ela colocou algumas cortinas como parede, para eu ficar mais a vontade. Então o Mestre explicou o motivo: "O Cortiço é onde a Abelha mora, aqui na minha casa você está num cortiço e você é o Abelha".
No dia 31 de Julho de 1998, recebi o Certificado de Professor de Capoeira Angola e no dia seguinte, 1 de Agosto o Mestre me chama, junto com Mãezinha e os netos e fala. "Abelha, agora vc é um professor de Capoeira Angola formado por mim, espero que respeite o meu nome, sempre quero saber como você está, se possível me visita uma vez por ano, para eu ver como está a sua capoeira, você agora deve voltar pro Maranhão e cuidar dos seus alunos como eu cuidei de você. Voltei para o maranhão seguindo as orientações de meu Mestre e no ano seguinte em 1999 realizei a primeira Clinica de Capoeira Angola em São Luis do Maranhão com a presença do meu Mestre, João Pequeno e a sua neta Nane. Durante uma semana nesse evento, consegui juntar vários grupos de capoeira do Maranhão, grupos culturais e meios de comunicações (televisão, radio e jornais).
Trinta minutos antes que acabasse o evento deixei que os participantes ficassem a vontade com o Mestre para saber mais sobre a capoeira. Várias perguntas foram feitas e uma delas me surpreendeu. Um participante perguntou:"Mestre João Pequeno, o que o Senhor está achando do Abelha representando a sua capoeira no Maranhão?"
O Mestre respondeu: "O Abelha não está representando minha capoeira, ele está fazendo o que eu ensinei, porque hoje muitas pessoas usam a capoeira pra brigar e esquecem dos fundamentos que o Mestre Pastinha nos deixou. O Abelha me deixa muito feliz, porque do pouco que ensinei a ele, ele faz muito, para mim o Abelha é um Mestre de Capoeira, o trabalho que ele tem no Maranhão, os amigos, o apoio que o governo está dando à capoeira e a ele, comprova que o Abelha está mostrando uma boa capoeira." Depois da resposta do Mestre, muitas pessoas vieram me parabenizar pelo titulo de Mestre. No dia seguinte estava no jornal: Mestre Abelha o mais novo angolero formado pelo ilustre Mestre João Pequeno de Pastinha.
Em 2000, registrei a Academia de Capoeira Angola Cortiço do Abelha como uma micro empresa, para poder trabalhar com projetos sociais financiados pelo governo para crianças e adolescentes carentes de São Luis. O grupo teve dois projetos aprovados pelo Governo Brasileiro dentro do programa CAPACITAÇÃO SOLIDÁRIA.
Em 2001 apresentei a capoeira angola a um francês chamado Herve Parent, porque ele estava interessado em saber mais sobre as raízes da capoeira. Mostrei a ele um projeto da Academia de Capoeira Angola Cortiço do Abelha e ele levou o projecto pra França com ele. Logo depois recebi um telefonema de Herve me convidando para mostra a filosofia e os movimentos da capoeira angola para as crianças e adolescentes franceses.
Em 2002, fiquei trabalhando paralelamente na França e no Brasil coordenando os projetos do grupo, sempre trabalhando com a capoeira angola e os resultados foram muito bons. Fundamos uma ONG em Teresina, no estado do Piauí, com o objectivo de proporcionar o intercâmbio cultural entre crianças Brasileira e Francesas. Essa ONG se chama: CAMINHO DAS CRIANÇAS BRASILEIRAS.
Em 2003, como as portas estavam se abrindo e muitos outros convites apareceram para participar de projectos dentro da recém formada comunidade europeia, onde trabalhei com Herve na França em projetos ligados a ONG e em seguida fui organizar a Capoeira Angola pelo mundo a fora na Itália, Suíça, Bélgica e Holanda.
Morei na Holanda por quatro anos e desde 2007 estou de volta ao Brasil, a minha amada terra natal, para terminar de construir a sede da Escola de Capoeira Angola Cortiço do Abelha de onde coordeno o trabalho de capoeira angola desenvolvido por meus alunos Pombo, Aberrer e Pezão respectivamente na Itália, França e Australia.
Mestre Abelha
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Autobiografia